mai 262013
 

O Estado do Maranhão, 26/5/13 por Zema Ribeiro

 

Com Floresta, Ligiana Costa quer voar

A cantora brasiliense Ligiana Costa acaba de lançar seu segundo disco, Floresta, obra impregnada de referências do Maranhão.

Zema Ribeiro
Especial para o Alternativo
26/05/2013 00h00

E m De amor e mar (2009), Ligiana emergia sem sobrenome como uma grata revelação da música brasileira. Sua estreia trazia regravações de Batatinha (Conselheiro, parceria com Paulo César Pinheiro), Cartola (Consideração, com Heitor dos Prazeres), Novos Baianos (Só se não for brasileiro nessa hora, da dupla Moraes e Galvão), Baden Powell e Vinicius de Morais (Canto do Caboclo Pedra Preta) e Tom Zé (Se), que participa do disco, cantando com ela Eu quero é botar meu bloco na rua (Sérgio Sampaio), que fecha o disco.

Ali, Ligiana já se insinuava compositora (Onda e Queda por um samba, esta parceria com seu pai, Celso Araújo, que também assina a letra de Chorando baixinho, de Abel Ferreira) e já se cercava de bons músicos e repertório para chegar exatamente onde queria.

Em Floresta (2013) não é diferente, embora também não seja igual. Ela espanta a “maldição” do segundo disco com um belo resultado. Agora, ela assina Ligiana Costa e é mais compositora do que nunca – assina sete das 11 faixas. Cinco são parcerias com Marcel Martins e com o pai Celso Araújo (Malabares), Juliana Kehl (Desperta), Lucas Paes (Rouge), o produtor e arranjador do disco Letieres Leite (Corda e Mearim) e Chico César (Um pássaro). O pai continua presente – além da citada parceria, assina Vem a tempestade, versão para música de Pino Daniele, e musica versos do poeta maranhense Sousândrade, na música Canção de Sousândrade.

O Maranhão, aliás, faz-se também mais presente neste segundo disco de Ligiana. Além das presenças do pai, do poeta Sousândrade, estão lá os rios Corda e Mearim (título de uma faixa) e a regravação de Boi de Catirina (Ronaldo Mota), lançada por Papete em Bandeira de Aço (1978). O primeiro título trazia o mar, o segundo, floresta. Em Ligiana, vida e música acontecem de um jeito todo natural.

 

Você é paulista, gerada no Xingu, crescida em Brasília, filha de uma mãe mineira e de um pai maranhense. De que modo este teu Paratodos tem reflexos em tua música?

Ligiana Costa – Eu me sinto sortuda por ser de Brasília, que é meio a síntese do Brasil, lugar onde se encontraram pessoas com todos os sotaques, culturas e jeitos do país para construir uma cidade que é meio de outro planeta, que é meio ET. Acho isso fascinante. Eu sou bem típica desse lugar, mãe da roça mineira e pai da floresta maranhense, criação na arquitetura de Niemeyer. Acho que o que faço musicalmente tem reflexos dessa multiplicidade e também da minha multiplicidade curiosa pessoal, as minhas andanças pelo mundo e as minhas andanças pelo tempo, por séculos passados e por lugares que me atiçam algum tipo de paixão.

No caso do disco Floresta, se junta a mim uma mente brilhante, que tem sua criação muito baseada nas ancestralidades afro-brasileiras, mas com antenas muito sérias apontadas para o mundo e para os tempos, que é o Letieres, que produziu e arranjou o disco. Acho que este encontro musical resulta em algo bastante verdadeiro, e é isso que me interessa ao fazer musica.

 

Este segundo disco está impregnado de Maranhão: homenageia a avó paterna, tem o poeta Sousândrade, o seu pai [o compositor Celso Araújo], Ronaldo Mota, Corda e Mearim, rios maranhenses. Esse focar no Maranhão foi intencional?

Ligiana Costa – O mais interessante de fazer arte é lidar com ela da forma mais submissa possível, lidar com a arte de forma espiritual, deixar que as coisas se resolvam porque existem forças que estão cuidando disso. O disco Floresta foi encarado dessa maneira. Quando juntei as canções não existia ainda a intenção de homenagear minha avó Floresta, foi ela que foi se mostrando ao longo do processo, foi se posicionando e, de repente, pareceu mais que óbvio que o disco fosse uma homenagem a ela e à energia da ancestralidade que ela representa, no caso, na minha vida pessoal. Claro que o fato dela ter esse nome, Floresta, rende a coisa ainda mais poética: sou neta da Floresta. A energia dela [que já faleceu] parecia guiar certas coisas e escolhas do disco. Boi de Catirina foi uma delas. Eu e Letieres ouvimos a canção e ficamos muito tocados. Quando mostrei para meu pai, ele disse “sua avó Floresta adorava cantar essa canção”. Enfim, dizer mais o que, né? O Maranhão é homenageado através de sua filha Floresta. Sousândrade é um poeta ao qual meu pai é muito ligado, além de ter composto a Canção de Sousândrade , ele escreveu e encenou uma peça linda sobre o poeta maranhense, se chama Sousândrade em câmara ardente. Quando estávamos começando a gravar o disco senti falta de ter algo meio biografiazinha da Floresta, e mostrei pro Letieres um esboço para Corda e Mearim, os dois rios que se encontram em Barra do Corda, a cidade em que ela nasceu, e fizemos essa espécie de vinheta para ela. Me sinto feliz por ter me conectado ao Maranhão neste trabalho, um lugar tão misterioso e forte e ao mesmo tempo tão cruelmente abandonado e pisoteado por forças nefastas.

 

Comparando a De amor e mar, tua caprichada estreia fonográfica, Floresta é praticamente quase todo autoral. O que essa mudança significou para você?

Ligiana Costa – É um disco no qual me coloco mais “criadora”, né? Gosto disso e busquei isso. Quando me aproximei da musica popular essa era uma das coisas que me interessavam, poder criar, compor, inventar mesmo. No primeiro disco não ousei muito, estava ainda tateando, me descobrindo. Nesse novo trabalho me deixei ser mais compositora, também graças à forma respeitosa e entusiasmada como Letieres acolheu as coisas que eu mostrava. Eu me senti também mais ousada vocalmente, experimentei bastante, me lancei nuns bons abismos com a voz e Letieres foi como um provocador disso, acho que começo a me aproximar de algo interessante também neste sentido, da voz como instrumento, como uma palheta rica de cores e possibilidades.

Floresta tem música tradicional do Haiti, Pino Daniele e Ronaldo Mota, para ficarmos em temas que tu recrias. Recentemente, você passou a apresentar um programa diário sobre música clássica na Rádio Cultura FM. Você ouve muita música, sempre? Costuma se reouvir? Pergunta-clichê: que discos levaria para uma ilha deserta?

Ligiana Costa – Não ouço música sempre, não. Gosto de ficar no silêncio em casa. Até por que é difícil para eu fazer da música pano de fundo. Gosto de ouvir com atenção plena. É até engraçado, nessa minha nova experiência de apresentar um programa diário na rádio tenho mudado um pouco os hábitos do pessoal nos estúdios da rádio, que nem sempre ouviam o que estava sendo tocado. Eu gosto de ouvir alto e ficar entregue a cada peça. Não costumo me reouvir muito, não. Se alguém coloca o disco, eu ouço, mas é meio complicado porque minha atenção vai toda pra música e não consigo mais dialogar [risos]. Levaria pra uma ilha Passarim, do Tom Jobim, a cantata Actus Tragicus de Bach, na gravação do Gardiner, o disco M’Bemba, do Salif Keita, Orkestra Rumpilezz e o oitavo livro de madrigais de Monteverdi na gravaçao do Rinaldo Alessandrini. Se você me perguntar isso amanhã, certamente a lista muda radicalmente. La Donna è móbile!

 

Como surgiu a parceria com Letieres Leite?

Ligiana Costa –Eu e Letieres nos conhecemos num contexto muito especial, num ritual de ano novo num lugar muito sagrado de Salvador. Eu tinha o disco pré-desenhado na cabeça, repertório, ideias, e mostrei pra ele, que achou que podíamos erguer a Floresta juntos. Letieres é um gênio da música, nada menos que isso. Estar próxima dele numa criação é um privilégio, tenho muito orgulho e felicidade por isso. Dialogamos muito sobre cada arranjo e conceito e, ao mesmo tempo, dei carta branca a ele. Gravar um disco independente tem essa vantagem enorme: sem concessões, criação de música pela música. Nisso eu e ele parecemos muito. Somos destemidos!

 

De amor e mar foi gravado em cidades diferentes: São Paulo, Brasília e Paris. Floresta foi todo gravado em Salvador, ao vivo no estúdio, você cantando e os músicos tocando todos ao mesmo tempo, sem edições. Que vantagens essa opção trouxe para o resultado que apresentas ao público?

Ligiana Costa –Acho que os dois modos de produção podem ser interessantes, mas neste meu momento atual e para esta música que desejava fazer, o ao vivo realmente era interessante. Letieres trabalha sempre assim. Ele gosta da música sendo feita junto, da energia que surge disso. E efetivamente sente-se vibração de vida em coisas gravadas dessa forma. No nosso caso gravamos algumas coisas em separado, cordas, sopros, vocais extras, mas a base foi feita toda em quatro madrugadas de estúdio, claro que com bons ensaios antes e com arranjos muito precisos de Letieres. Gosto também da exaustão na arte, da urgência, acho que esses fatores são convocados num tipo de gravação como esta.

 

Antes de o disco físico ficar pronto, Floresta foi disponibilizado para audição no Facebook e no Soundcloud. Instantaneamente, caiu na rede para download. Qual a tua opinião sobre o download, legal e ilegal, de músicas e outros bens culturais, nestes tempos hipertecnologizados?

Ligiana Costa –Gosto muito da ideia de circulação da música, das possibilidades que a internet e a troca de informações trazem. Lembro que quando comecei a estudar música barroca eu juntava dinheiro pra comprar um ou dois cds por mês, vivia na caça, com fome de ouvir coisas novas. Hoje em dia é tão fácil conhecer coisas de todos os lugares e tempos, isso é genial. Eu mesma consumo música de todos os modos, ainda compro cds, baixo música ilegalmente e também legalmente.

 

Em De amor e mar, você assinava apenas Ligiana. Por que a opção de assinar Ligiana Costa em Floresta?

Ligiana Costa –Não tem um motivo específico. Acho que quis ter sobrenome, origem. Gosto do meu Costa porque é simples, curto e bem sonoro.

 

Feito o pássaro do título da faixa que fecha o disco [Um pássaro, parceria com Chico César], quais os planos de Ligiana para os próximos cantos e os próximos voos?

Ligiana Costa –Assim como o pássaro: cantar. Quero muito fazer shows do disco Floresta. Adoraria fazer um no Maranhão, terra da homenageada! Além disso, estou agora vivendo uma experiência maravilhosa, tenho meu próprio programa de rádio e isso é delicioso, poder propor músicas para milhões de pessoas, transmitir coisas boas e tal.

http://imirante.globo.com/oestadoma/noticias/2013/05/26/pagina247545.asp